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“O MUNDO DO CAVALO BRASILEIRO”

“Cavaleiros de um outro país podem parecer bastante diferentes em alguns aspectos, mas muito iguais em outros.”

Texto e fotos: Holly & Zane Davis
Artigo publicado originalmente na revista “Western Horseman”, edição de Novembro de 2003, Vol. 68, No.11.

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O LEILÃO

Minha primeira parada no Brasil foi no Haras Maripá, uma fazenda de criação de gado e cavalo, de propriedade de Marcelo Baptista de Oliveira, e séde de um dos mais prestigiados leilões de Mangalarga Marchador do Brasil. (Veja quadro ao final da reportagem). Minha demonstração de como iniciar o trabalho com um potro estava programada para ser um entretenimento antes do começo do pregão, e alguns garanhões Andaluses e Puros-Sangues tinham sido despachados do Sul do país para esta demonstração.

Como nos Estados Unidos, leilões de cavalos no Brasil são um grande evento social. Aproximadamente 700 pessoas chegaram mais cedo para assistir às minhas preliminares com um garanhão andaluz de 3 anos que tinha sido maltratado durante a doma. Embora métodos racionais de doma já tivessem sido praticados em algumas partes do Brasil por algum tempo, a idéia era ainda bastante nova para muitas das pessoas ligadas a cavalos ali presentes. Não muito tempo depois, o potro já tinha se acalmado, aceitado pela primeira vez a sela e o bridão e me permitiu dirigí-lo e montá-lo. Ele também me deixou pegar suas quatro patas antes intocáveis.

O leilão que se seguiu à minha apresentação foi diferente de qualquer outro que os americanos presentes já haviam visto. Eles o descreveram como uma mistura de um leilão de potros selecionados “Keeneland” de primeiro nível e o leilão “Grundy County”. O leiloeiro gritava ao microfone e, entre cada lote à venda, rock and roll dos anos 80 tocava no último volume.

Os cavalos, alguns dos melhores da raça Mangalarga Marchador, eram apresentados num palco de 150 pés. Alguns eram mostrados montados, mas a maioria era apresentada puxada. Os apresentadores apenas os faziam andar rápido para um lado e para outro do palco para demonstrar suas habilidades de marcha. Quando perguntei porque os cavalos postos à venda não demonstravam outras habilidades me disseram que os compradores estavam apenas interessados na marcha. Aqueles que tinham uma boa marcha, equilibrada, eram vendidos em média por US$10.000.

Bebidas eram oferecidas como cortesia e, junto com aperitivos, começaram a ser servidos 1 hora antes do início do pregão e continuaram até 1 hora depois que último cavalo foi vendido. Obviamente os ânimos estavam exaltados depois de 4 horas de leilão. Um dos últimos lotes, uma égua de 5 anos, foi vendida por mais de US$100.000.

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O TRABALHO NAS FAZENDAS

O dia seguinte foi de muito trabalho, como sempre, no Haras Maripá. Eu fiquei para ajudar os peões da fazenda a curar bezerros. Além dos mais de 100 cavalos, no Haras Maripá encontram-se também algumas centenas de cabeças de gado. O Brasil é um dos maiores produtores de carne do mundo.

Por ser o mês de novembro primavera no Hemisfério Sul, a fazenda estava bem no meio da estação de nascimento de bezerros. Os cuidados com os bezrerros lá são muito semelhantes aos que se adotam nos Estados Unidos. As selas brasileiras, no entanto, são diferentes. Elas não têm “Santo Antonio” e são similares na aparência às selas australianas. Os laços tradicionais são feitos de fibra e têm uma argola pesada de ferro na ponta. O laço é atado fortemente a uma outra argola atrás da sela. Quando um animal é laçado o peão solta as voltas do laço e cavalga na direção oposta ao animal laçado. Embora isso tenha parecido um pouco estranho para mim, os brasileiros usam o método de forma bastante eficiente.
Quando o gerente da fazenda, Ari, não conseguia laçar um bezerro particularmente difícil, ele me passava seu laço. Arí tinha assistido cavalos sendo laçados durante a clínica particular na fazenda e decidiu que um peão americano poderia ter melhor sorte. E eu tive – mas instintivamente eu fiz três laçadas em volta do lugar onde deveria estar o “Santo Antonio”. Enquanto o laço escorregava rápido nas minhas mãos eu olhava para baixo. Eu não estava sentindo falta de alguma futilidade, eu estava sentindo falta era do “Santo Antonio”. Tudo isso era bastante divertido para os brasileiros que tinham assistido a filmes de “faroeste” o suficiente para saber o que tinha saído errado!

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A VIAGEM

Depois de deixar um super laço de 50 pés com um muito agradecido Arí, eu continuei minha viagem de demonstrações de treinamento de cavalos por São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Iniciei a doma de vários potros durante as demonstrações e trabalhei com um sem número de cavalos que tinham sido maltratados na doma e que corcoveavam, mordiam, davam coices e tinham muitas outras baldas. À medida em que eu acabava de trabalhar com um cavalo, um outro tomava seu lugar, e as sessões de treinamento duravam até a noite. Os expectadores brasileiros eram muito relaxados e tinham disposição para ficar sentados por horas. Mesmo quando chovia, eles simplesmente abriam seus guarda-chuvas e continuavam a me observar e a fazer perguntas.

Foi animador trabalhar com pessoas tão sedentas de conhecimento e prontas para aprender. Muitos criadores trouxeram seus peões e tratadores para observar e participar das demonstrações, e os brasileiros estavam determinados a levar de volta, para adequar a seus próprios programas de treinamento, o máximo de conhecimento possível. Para ajudá-los a continuar seus estudos eu indiquei video-teipes e sites na Internet direcionados a cavaleiros americanos. Também aceitei aprendizes brasileiros que quiseram aprimorar seus conhecimentos sobre cavalos, e continuo com minhas clínicas na América do Sul, mais recentemente retornando para a Exposição Nacional do Cavalo Mangalarga Marchador em Belo Horizonte, Brasil.

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MANGALARGA MARCHADOR: O CAVALO DO BRASIL

Quando os exércitos de Napoleão invadiram Portugal em 1807, o Príncipe Regente D. João VI e sua corte fugiram dos franceses e se estabeleceram numa colônia portuguesa, que mais tarde se tornou conhecida como Brasil. Eles trouxeram seus valorosos cavalos com eles.
Uma vez estabelecidos no Novo Mundo, o Príncipe presenteou com um garanhão o fazendeiro proprietário de plantações Gabriel Francisco Junqueira, que tinha estabelecido um programa de criação de cavalos com sucesso. Pouco se sabe sobre este garanhão, mas acredita-se que ele era descendente de um cruza Bérbere. Junqueira utilizou o presente do Príncipe cruzando-o com éguas crioulas, o que ajudou a produzir o tipo de cavalo de sela que o Sr. Junqueira desejava.
Este cruzamento produziu um cavalo extremamente dócil com um andamento macio e confortável e energia suficiente para cobrir longas distâncias. O Sr. Junqueira tornou sua nova raça conhecida, e hoje, o Mangalarga Marchador, como os cavalos vieram a ficar conhecidos, é a raça mais numerosa do Brasil. Embora no início tenha sido popular apenas em seu país nativo, o Marchador se tornou global e conta com um número de criadores agora também nos Estados Unidos.
O Marchador é diferente de outras raças de marcha porque seu andamento é difícil de ser reconhecido por olhos destreinados. Os criadores alegam que o Mangalarga Marchador oferece o conforto de um cavalo de marcha sem movimentos “extras” de marcha, ou seja, sem desperdiçar energia no movimento. A cor mais comum é o tordilho, embora todas as outras cores sejam aceitas. Sua altura média sendo de 1,52m, Mangalarga Marchadores são usados em quase todas as categorias no Brasil e são muito populares tanto como cavalos para trabalho em fazendas e para cavalgadas, como para uma categoria em que se destacou mais recentemente: a de estrela dos enduros.

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Nota do Editor:
Zane Davis, inicialmente um campeão de “bareback”, modalidade de montaria em cavalos de rodeio onde não se usa sela, cresceu no mundo dos cavalos e dos rodeios. Ele treina cavalos profissionalmente para o trabalho das fazendas e laço, dividindo seu tempo entre Montana, Flórida e Idaho. Todos os anos ele desenvolve e coordena as cerimônias de abertura do “Wrangler National Finals Rodeo”. Seus heróis são treinadores da metade do século XX: Matlock Rose, Jimmy Williams and Don Dodge, Treinadores diversificados, que prepararam cavalos para as mais variadas disciplinas. Você pode contactar Zane Davis no endereço dsranch@hotmail.com .
Quando um executivo da Merrill Linch pediu a Davis para conduzir demonstrações de treinamento de cavalos, (doma racional), para investidores brasileiros, Davis vislumbrou aí uma grande oportunidade de compartilhar métodos naturais, (racionais), de doma que ainda não haviam sido tão largamente aceitos no Brasil quanto nos Estados Unidos. Por ser fluente em Português, Davis poderia trabalhar de bem perto com brasileiros criadores, proprietários e treinadores de cavalos durante sua visita de quatro etapas. Aqui estão suas impressões sobre o mundo do cavalo brasileiro.

Artigo publicado originalmente na revista “Western Horseman”, edição de Novembro de 2003, Vol. 68, No.11.

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